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Mounjaro® pode causar queda de cabelo?


Essa pergunta precisa de uma resposta cuidadosa.

Sim, queda de cabelo tem sido relatada em pessoas que usam tirzepatida, mas ainda não sabemos em que proporção o efeito é causado diretamente pelo medicamento ou indiretamente pela perda de peso e pelas mudanças nutricionais associadas ao tratamento.

A evidência atual vem principalmente de:

  • estudos observacionais;

  • bancos de farmacovigilância;

  • relatos clínicos;

  • revisões sistemáticas recentes.

Ainda faltam estudos prospectivos desenhados especificamente para responder se a tirzepatida provoca alopecia de forma independente da perda de peso. (PubMed)

Uma revisão sistemática publicada recentemente identificou maior frequência de sinais de queda capilar com semaglutida e tirzepatida, sendo o eflúvio telógeno um dos padrões mais descritos. (PubMed)

 

O que é eflúvio telógeno?

O cabelo passa por diferentes fases de crescimento.

De forma simplificada, temos:

anágena: fase de crescimento;

catágena: fase de transição;

telógena: fase de repouso, após a qual o fio se desprende.

No eflúvio telógeno, uma quantidade maior de fios do que o habitual passa precocemente para a fase de repouso.

Algum tempo depois, esses fios começam a cair.

Por isso, é comum que a pessoa tenha passado por um evento importante e só perceba a queda capilar semanas ou meses depois.

Emagrecimento rápido é um gatilho reconhecido para eflúvio telógeno. Um estudo retrospectivo publicado em 2024 avaliou especificamente casos associados à perda de peso e reforçou essa relação. (PubMed)

 

Por que a perda de peso pode provocar queda de cabelo?

O folículo piloso é um tecido metabolicamente ativo.

Quando o organismo passa por uma situação de forte restrição energética ou mudança metabólica, ele tende a priorizar funções essenciais.

O crescimento do cabelo não é uma função vital.

Por isso, situações como:

  • perda rápida de peso;

  • dietas muito restritivas;

  • ingestão insuficiente de proteínas;

  • deficiência de ferro;

  • deficiência de zinco;

  • baixa ingestão calórica;

  • doenças agudas;

  • grandes cirurgias;

  • estresse fisiológico intenso

podem alterar o ciclo dos fios e desencadear eflúvio telógeno.

Durante o tratamento com tirzepatida, vários desses fatores podem coexistir.

 

O problema pode não ser o Mounjaro® em si, mas a velocidade do emagrecimento

Esse é um dos pontos mais importantes.

Tirzepatida pode produzir perdas de peso expressivas. A Anvisa aprovou Mounjaro® para controle crônico do peso em adultos com obesidade ou sobrepeso associado a comorbidades, sempre em conjunto com dieta hipocalórica e aumento da atividade física. (Serviços e Informações do Brasil)

Quanto maior e mais rápida a mudança corporal, maior pode ser o estresse metabólico.

Revisões recentes apontam justamente o emagrecimento rápido como uma hipótese importante para explicar a maior ocorrência de eflúvio telógeno entre usuários de tirzepatida e semaglutida. (PubMed)

Isso também explica por que queda de cabelo pode acontecer após:

  • cirurgia bariátrica;

  • dietas muito restritivas;

  • doenças graves;

  • outras formas de emagrecimento rápido,

mesmo sem uso de medicamentos incretínicos.

 

A tirzepatida pode afetar o cabelo diretamente?

Ainda não sabemos.

Alguns pesquisadores levantam a hipótese de que medicamentos que atuam sobre GLP-1 possam interferir no ciclo folicular ou em mecanismos hormonais e metabólicos relacionados ao cabelo.

Mas essa hipótese ainda não está comprovada.

Uma revisão de 2026 concluiu que os sinais de associação são mais consistentes para semaglutida e tirzepatida, porém ressaltou que não existe demonstração definitiva de causalidade. (PubMed)

Outra revisão sistemática de 2025 encontrou resultados conflitantes e concluiu que mais estudos são necessários. (PubMed)

Portanto, é mais correto falar em associação do que afirmar que o medicamento diretamente “mata” ou enfraquece os folículos.

 

A queda pode aparecer quanto tempo depois?

No eflúvio telógeno, a queda costuma apresentar um atraso em relação ao evento desencadeante.

Isso acontece porque o fio não cai imediatamente após entrar na fase telógena.

Na prática, a pessoa pode estar emagrecendo há algum tempo e só depois perceber:

  • muito cabelo no banho;

  • fios na escova;

  • aumento da queda ao passar a mão;

  • redução difusa do volume capilar.

Por isso, às vezes o paciente não relaciona a queda atual a uma perda de peso que começou meses antes.

 

Como é a queda típica do eflúvio telógeno?

O padrão geralmente é difuso.

Ou seja, os fios caem de toda a cabeça, em vez de formar uma falha localizada única.

É comum a pessoa perceber:

  • rabo de cavalo mais fino;

  • maior visualização do couro cabeludo;

  • redução geral da densidade;

  • quantidade aumentada de fios durante a lavagem.

O eflúvio telógeno é normalmente uma alopecia não cicatricial, o que significa que o folículo não é destruído.

Na maioria dos casos, após a correção do gatilho, existe potencial de recuperação.

 

Mas nem toda queda durante o uso de Mounjaro® é eflúvio telógeno

Esse cuidado é fundamental.

A perda de peso pode simplesmente revelar um problema capilar que já existia.

Por exemplo, algumas pessoas têm alopecia androgenética — a calvície de padrão feminino ou masculino — em estágio inicial e pouco perceptível.

Quando ocorre um eflúvio telógeno, a redução brusca da densidade pode tornar essa condição muito mais evidente.

Revisões recentes identificaram eflúvio telógeno e alopecia androgenética entre os padrões mais frequentemente relatados em usuários de medicamentos GLP-1. (PubMed)

Por isso, simplesmente tomar um “vitamínico para cabelo” sem diagnóstico pode atrasar o tratamento correto.

 

1. O primeiro cuidado é verificar se a alimentação ficou insuficiente

Quando o Mounjaro® reduz muito o apetite, algumas pessoas passam a consumir uma quantidade extremamente pequena de alimentos.

Isso pode reduzir também a ingestão de nutrientes importantes para o cabelo.

A avaliação deve considerar, entre outros fatores:

  • quantidade total de alimentos;

  • ingestão proteica;

  • qualidade da alimentação;

  • velocidade da perda de peso;

  • sintomas gastrointestinais;

  • presença de vômitos ou diarreia;

  • uso de suplementos;

  • doenças associadas.

O objetivo não é simplesmente fazer a pessoa comer mais, mas garantir que a dieta reduzida continue sendo nutricionalmente adequada.

 

2. Proteína merece atenção

O cabelo é constituído predominantemente por queratina, uma proteína.

Uma dieta muito pobre em proteína pode contribuir para queda de cabelo, especialmente quando associada a uma restrição calórica importante.

Além disso, proteína adequada é importante também para preservação de massa muscular durante o emagrecimento.

Isso não significa que consumir grandes quantidades de proteína fará o cabelo crescer mais rápido.

O objetivo é evitar deficiência.

A quantidade ideal deve ser individualizada conforme peso, idade, composição corporal, nível de atividade física, função renal e estado clínico.

 

3. Ferro e ferritina podem precisar ser avaliados

Deficiência de ferro é uma causa conhecida de queda de cabelo.

Por isso, em pacientes com eflúvio telógeno, o médico pode avaliar exames como:

  • hemograma;

  • ferritina;

  • ferro e outros parâmetros do metabolismo do ferro,

dependendo do caso.

É importante não iniciar suplementação de ferro sem necessidade comprovada, porque excesso de ferro também pode ser prejudicial.

 

4. Zinco pode estar envolvido, mas suplementação não deve ser automática

Deficiência de zinco também pode contribuir para alterações capilares.

Entretanto, isso não significa que todo paciente com queda de cabelo deva tomar zinco.

Suplementação em excesso pode provocar efeitos adversos e até interferir no metabolismo do cobre.

O ideal é avaliar alimentação, sintomas, exames e contexto clínico antes de suplementar.

 

5. Vitamina D, B12, folato e outros nutrientes podem ser investigados

Dependendo da história do paciente, podem ser considerados exames para avaliar:

  • vitamina D;

  • vitamina B12;

  • folato;

  • proteínas;

  • outros micronutrientes.

Mas é importante evitar a ideia de que existe um painel obrigatório de exames para todo usuário de Mounjaro®.

A investigação deve ser guiada pela história clínica.

 

6. A tireoide também precisa ser lembrada

Alterações da função da tireoide podem causar queda difusa de cabelo.

Por isso, diante de uma queda importante, especialmente acompanhada de outros sintomas, o médico pode solicitar avaliação de:

  • TSH;

  • T4 livre,

e outros exames quando necessário.

Isso é importante porque atribuir toda queda ao Mounjaro® pode fazer com que uma causa totalmente diferente seja negligenciada.

 

7. Não suspenda Mounjaro® por conta própria apenas por causa da queda

Esse ponto merece destaque.

Se o paciente está obtendo benefício importante no tratamento do diabetes ou da obesidade, interromper a tirzepatida de forma abrupta apenas porque começou a perceber queda de cabelo pode não ser a melhor decisão.

A literatura recente inclusive chama atenção para o risco de interrupção prematura de um tratamento eficaz diante de um evento capilar potencialmente transitório. (PubMed)

A conduta deve ser discutida com o médico.

Às vezes o problema pode ser manejado por:

  • adequação da alimentação;

  • correção de deficiências;

  • reavaliação da velocidade de perda de peso;

  • investigação dermatológica;

  • tratamento específico do couro cabeludo.

8. Quando procurar um dermatologista?

A avaliação dermatológica é especialmente importante quando:

  • a queda é muito intensa;

  • persiste por vários meses;

  • existem áreas localizadas sem cabelo;

  • existe coceira intensa, dor ou descamação;

  • o couro cabeludo apresenta inflamação;

  • há sinais de alopecia androgenética;

  • existem alterações em sobrancelhas ou outros pelos;

  • a densidade capilar não começa a se recuperar após o controle do gatilho.

O dermatologista pode realizar exame clínico e tricoscopia e diferenciar eflúvio telógeno de outros tipos de alopecia.

 

9. Minoxidil é necessário?

Nem sempre.

No eflúvio telógeno agudo, quando o desencadeante é identificado e corrigido, os folículos frequentemente retomam seu ciclo.

O minoxidil pode ser indicado em determinadas situações, principalmente quando existe associação com alopecia androgenética ou quando o médico entende que há benefício.

Mas ele não deve ser considerado obrigatório para toda pessoa que teve queda após emagrecer.

O diagnóstico vem antes do tratamento.

 

10. Biotina resolve a queda de cabelo?

A biotina ficou popularmente associada a cabelo e unhas, mas deficiência verdadeira é relativamente incomum em pessoas com dieta normal.

Não existe boa evidência de que altas doses de biotina tratem queda de cabelo em pessoas sem deficiência.

Além disso, doses elevadas podem interferir em determinados exames laboratoriais.

Por isso, não é recomendável usar biotina indiscriminadamente como solução automática para eflúvio telógeno.

 

11. Fórmulas para cabelo podem ajudar?

Podem ser úteis quando existe uma indicação específica.

Uma fórmula bem indicada pode fazer sentido, por exemplo, quando foram identificadas:

  • deficiências nutricionais;

  • baixa ingestão de determinados nutrientes;

  • alopecia androgenética associada;

  • necessidade de tratamento tópico específica.

O que não faz sentido é utilizar automaticamente uma fórmula extensa com dezenas de vitaminas e minerais em qualquer pessoa que teve queda após Mounjaro®.

Mais ingredientes não significam necessariamente melhor resultado.

 

12. Quanto tempo leva para o cabelo voltar?

Esse é um ponto que exige paciência.

O folículo piloso trabalha em ciclos lentos.

Mesmo após corrigir o fator desencadeante, a recuperação não é imediata.

Em eflúvio telógeno, costuma haver primeiro uma redução progressiva da queda e, depois, surgimento de novos fios.

A recuperação da densidade visual leva mais tempo porque os novos fios precisam crescer.

Por isso, é importante não trocar de tratamento a cada poucas semanas por achar que “não funcionou”.

 

Como reduzir o risco de queda durante o emagrecimento?

Não existe uma forma garantida de impedir o eflúvio telógeno, mas algumas medidas são coerentes com o conhecimento atual:

  1. evitar restrições alimentares extremas;

  2. manter ingestão adequada de proteínas;

  3. garantir boa qualidade nutricional;

  4. acompanhar perdas de peso muito rápidas;

  5. investigar e corrigir deficiências quando existentes;

  6. manter acompanhamento médico e nutricional;

  7. procurar avaliação dermatológica se a queda for importante.

A revisão mais recente da literatura reforça que otimização nutricional e acompanhamento clínico são especialmente importantes durante tratamentos incretínicos. (PubMed)

 

Perguntas frequentes

Mounjaro® faz o cabelo cair?

Há associação relatada entre tirzepatida e queda de cabelo, mas ainda não foi comprovado que o medicamento cause diretamente alopecia. O emagrecimento rápido e alterações nutricionais parecem explicar parte importante dos casos. (PubMed)

A queda é permanente?

Quando se trata de eflúvio telógeno, normalmente não. Trata-se de um processo não cicatricial e potencialmente reversível após correção do gatilho. Entretanto, outras causas de alopecia precisam ser excluídas.

Se eu parar Mounjaro®, o cabelo volta?

Não necessariamente é preciso suspender o medicamento. Se o gatilho principal for emagrecimento rápido ou deficiência nutricional, corrigir esses fatores pode ser suficiente. A decisão de alterar o tratamento deve ser médica.

Preciso tomar vitamina para cabelo?

Não obrigatoriamente. Suplementação deve ser dirigida a uma necessidade identificada.

Quanto tempo depois de começar Mounjaro® o cabelo pode cair?

O eflúvio telógeno costuma surgir com atraso em relação ao estresse desencadeante, portanto a queda pode aparecer semanas ou meses após o início da perda de peso.

Whey protein ajuda?

Pode ajudar a atingir a necessidade diária de proteína quando a alimentação não é suficiente, mas não é um tratamento específico para alopecia.

Creatina ajuda o cabelo?

Creatina não é tratamento para eflúvio telógeno.

Colágeno melhora a queda?

Colágeno oral não deve ser tratado como solução específica para eflúvio telógeno. A prioridade é identificar o gatilho, garantir nutrição adequada e investigar outras causas de queda.

Minoxidil pode ser usado?

Pode ser indicado em determinados pacientes, mas depende do diagnóstico e deve ser avaliado pelo médico ou dermatologista.

 

Avaliação Técnica da Gállica

A relação entre Mounjaro® e queda de cabelo precisa ser comunicada com cuidado.

Os dados mais recentes apontam um sinal real de associação, principalmente com eflúvio telógeno, mas ainda não permitem concluir que a tirzepatida tenha um efeito tóxico direto sobre o folículo piloso. Estudos de farmacovigilância e revisões sistemáticas mostram maior frequência de relatos com semaglutida e tirzepatida, enquanto emagrecimento rápido aparece repetidamente como possível fator desencadeante. (PubMed)

Por isso, a melhor abordagem não é simplesmente prescrever uma “vitamina para cabelo”.

É necessário perguntar:

Quanto peso foi perdido? Em quanto tempo? Como está a alimentação? Existe consumo adequado de proteína? Há deficiência de ferro ou outros nutrientes? Existe uma alopecia prévia que ficou mais evidente?

Essa investigação permite tratar a causa provável e evita suplementações desnecessárias.

Na Gállica Manipulação, fórmulas capilares podem ser preparadas de forma individualizada quando prescritas, mas devem fazer parte de uma estratégia baseada em diagnóstico e necessidade real do paciente.

 

Considerações finais

A queda de cabelo durante o emagrecimento com Mounjaro® pode ser angustiante, mas muitas vezes está relacionada a um fenômeno conhecido e potencialmente reversível: o eflúvio telógeno.

O emagrecimento rápido, a redução intensa da alimentação e eventuais deficiências nutricionais podem alterar temporariamente o ciclo dos cabelos.

Ao mesmo tempo, nem toda queda deve ser atribuída ao medicamento.

Alopecia androgenética, alterações da tireoide, deficiência de ferro e outras causas podem coexistir.

Por isso, diante de queda importante, a melhor estratégia é investigar antes de suplementar.

Preservar a qualidade da alimentação, garantir proteína adequada, acompanhar a velocidade do emagrecimento e procurar avaliação médica ou dermatológica quando necessário são medidas mais importantes do que procurar uma solução única ou imediata.

 

Referências bibliográficas

  1. GLP-1 therapies and hair loss: A systematic review of current evidence and implications for counseling. 2026. Revisão sistemática que identificou associação mais frequente de semaglutida e tirzepatida com queda capilar e destacou o eflúvio telógeno e a perda rápida de peso como fatores relevantes. (PubMed)

  2. ALSUWAILEM, R. et al. Hair Loss Associated With Glucagon-Like Peptide-1 (GLP-1) Receptor Agonist Use: A Systematic Review. Cureus. 2025;17(9):e92454. DOI: 10.7759/cureus.92454. (PubMed)

  3. Alopecia as an Emerging Adverse Effect Associated With Glucagon-Like Peptide-1 Receptor Agonists for Weight Loss: A Scoping Review. 2025. (PubMed)

  4. Hair Loss in Patients on Glucagon-Like Peptide 1 Receptor Agonists: Understanding Risks and Managing Outcomes. 2026. (PubMed)

  5. KANG, D. H. et al. Telogen Effluvium Associated With Weight Loss: A Single Center Retrospective Study. Ann Dermatol. 2024;36(6):384-388. DOI: 10.5021/ad.24.043. (PubMed)

  6. GLP-1 Receptor Agonists and Alopecia: A Systematic Review and Meta-Analysis of Incidence, Risk, Subtypes, and Mechanisms. 2026. (PubMed)

  7. BURKE, O. et al. Glucagon-like peptide-1 receptor agonist medications and hair loss: A retrospective cohort study. Journal of the American Academy of Dermatology. 2025;92(5):1141-1143. DOI: 10.1016/j.jaad.2025.01.046. (PubMed)

  8. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA – ANVISA. Mounjaro® (tirzepatida): nova indicação. 2025. (Serviços e Informações do Brasil)

 

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